Estas Naturezas São Impossíveis

Exposição “Que culpa tem o tomate?” Colectivo Pescada nº 5

(Escola Superior Agrária de Coimbra, Novembro 2013)

 

Participantes: Colectivo Pescada nº 5: Eduardo Basto, Hugo Besteiro, Sandra Cruz, Vanda Ecm, Fernando Faria, Fátima Feliciano, Maria Antónia Ferro, Dr. Gica, Susana Gonçalves, Carlos Júlio, Jorge Martinho, Maria Paulina, Rita Maia, Frederico Martinho, Alda Reis, Fátima Séneca e Ana Teixeira 

Convidado especial: Engenheiro José Dias Pereira

 

 

Alda Reis

Arquivo Fotográfico

Casa do Bispo – Museu da Escola Agrária de Coimbra

 

O Museu da Casa do Bispo contém um interessante espólio científico utilizado pela Escola Agrária desde a sua instalação definitiva em Coimbra em 1887: objectos e equipamentos ligados à produção agrícola e animal, expositores de fauna e flora, uma colecção peculiar de insectos nocivos, cartas geográficas, geológicas, de botânica, o nº4 dos Tableaux Auxiliaires Delmas, … , uma fonte de conhecimento em estado puro que convida à reflexão sobre as mudanças ocorridas nos métodos de ensino e técnicas pedagógicas de então para cá. Dois exemplos: 

Os Tableaux Delmas, criados em 1902 para o ensino de línguas, foram concebidos como um método de aprendizagem directo e pela imagem. O desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação, o uso extensivo da informática e o acesso à internet, vieram potenciar as possibilidades deste método e das suas bases conceptuais.

A Colecção de Peixes é exemplo das técnicas pedagógicas expositivas que, tal como os experimentos, utilizam seres vivos como testemunhos para a aprendizagem. Esta técnica penso que está hoje ultrapassada ao nível pedagógico com o advento da era digital.

Mas nem por isso apaga as questões filosóficas da ética, dos direitos dos animais e dos limites da intervenção humana sobre outros seres vivos, seja com fins didácticos ou de investigação (o caso da ovelha Dolly é disso exemplo). Estas questões são hoje fulcrais, se nos lembrarmos que a manipulação genética do ser humano, que constitui o cerne do debate da eugenia liberal (Habermas), terá um impacto decisivo sobre o futuro da sociedade e da própria natureza humana.

O projecto de Instalação, Fotografia e Técnica Mista traz à luz estas questões sobre a evolução da vida e da espécie humana e sobre o risco do conhecimento sem consciência, que só pode conduzir a um mundo sem compaixão, onde o ser humano se destina a ser apenas um número, tal como os peixes do museu ou o mundo de Huxley.

 

 

 

Ana Teixeira

Terra a terra

A Agrária enunciada pelo solo. O chão de cultivo como desígnio básico.

 

  

 

Carlos Júlio

Estudos de locomoção animal

 

Ao Senhor Manuel Vaz Castro, monitor de equitação e ao seu filho, cavaleiro João Manuel, agradeço o apoio e paciência que tornaram possível este “estudo” realizado com o macho lusitano I-Tê e com a égua cruzada portuguesa Que-Alce, que consistiu em fixar num dos membros locomotores do equídeo uma máquina fotográfica programada para captar imagens de 2 em 2 segundos durante a locomoção a passo e a galope.

 

 

Vanda Ecm

Exercícios de Equitação

 

“Tal como o fogo violento incendeia uma enorme floresta

no cume da montanha e de longe se avistam as labaredas –

assim do bronze incontável daqueles que marchavam

subia pelo ar o fulgor resplandecente até ao céu.

Tal como as muitas raças de pássaros providos de asas,

gansos ou grous ou cisnes de longos pescoços,

na pradaria asiática junto às correntes do Caístrio

voam por aqui e por ali, radiantes com a raça das asas,

avançando à medida que gritam e toda a pradaria ressoa –

assim as muitas raças se entornaram das naus e das tendas

para a planície do Escamandro; e de modo terrível

ressoou a terra debaixo dos pés, deles e dos cavalos.”

 

Canto II, versos 455-466, Ilíada, Homero (trad. De Frederico Lourenço)

 

 

 

DrGica

Knowing vs Seeing

 

“DrGica em Knowing vs Seeing, fotografou modelos de frutos do Museu, criando naturezas-mortas meticulosamente dispostas. Interessou-se em explorar a encenação e trabalhar os valores plásticos da Fotografia, revisitando interesses dos fotógrafos do Pictorialismo, que trabalhavam entre a pintura e a fotografia, advogando a capacidade de criar arte através de máquinas e de químicos. Deste modo, conseguiu fotografias que nem trazem os objetos para o presente, nem os devolvem ao seu contexto original. Estas naturezas-mortas são impossíveis, ou seja, não existem assim, conquanto só possam ser realizadas recentemente: por paradoxais, transportam-nos para a intemporalidade.” (Fátima Séneca, in Folha de Sala da Exposição Que Culpa Tem o Tomate, 30 de novembro de 2013)

 

 

 

Eduardo Basto

Ilhéu

 

Ainda agrária, mas já não rural: enquanto condensação do que um dia foi o mundo, não perdeu atualidade. O processo que reconfigura as zonas originais é o mesmo que confina a réplica desses espaços aos pedaços deixados pelo cumprimento do sonho da proximidade. E é por ser forçada a imitar os factos a que foi buscar substância que mantém a sua qualidade de representação. Agora não como signo da segurança de um modo de existir, mas da precariedade que antes não lhe era reconhecida. Em todo o caso, uma representação que cumpre a sua função pedagógica, até de forma imprevista. Cá e lá, na desordem como na maquete, o que antes era o mundo é agora um ilhéu, pequena massa de terra cercada de incerteza por todos os lados.

 

 

 

Fátima Feliciano

Impressões fotovoltaicas na Agrária

 

Ângulo de visão quase vertical na direção do centro da terra... pedras, pedrinhas, pedregulhos, folhas, folhinhas, sedimentos, suave e duramente pisados num desafio de equilíbrio cerebeloso.

Ângulo de visão quase horizontal em 360 graus no horizonte... troncos, ramos, folhas, prados, picadeiro, apiário, riqueza de fauna e flora que invadem prazenteiramente as células fotorrecetoras.

Ângulo de visão vertical na direção via láctea... azul pontilhado, num infinito interrompido pelo negrume ramificado da flora ambiciosamente ascendente.

Alongo-me, estico-me e deixo-me levitar pelo negrume direção ao infinito, corpo disperso pelas partículas atmosféricas... universo.

 

 

 

Fátima Séneca

Duas Terras, Instalação

 

Fátima Séneca, com Duas Terras, transporta o chão da Agrária para a exposição, completando-o com solo trazido da Beira Interior. Qualquer afiliação a projetos históricos  de Land Art e/ou da Arte Conceptual seria a pior imodéstia e retirava o trabalho do contexto autobiográfico e experiencial que lhe deu origem. Aproveitou-se esta ocasião para miscigenar duas terras, já que a autora nasceu numa e cresceu noutra, obtendo-se uma espécie de auto-retrato, mais literal do que explícito. Acrescentou-se a esse pedaço de terreno um pequeno ancinho, para que o público pudesse interagir com terra, marcando-a: convida-se a um regresso à infância e motiva-se a gestos desnecessários. 

 

 

 

Fernando Faria

Composições

 

assim que a terra se torna lama, a lama toma conta das mãos, tinge as canelas e é capaz de nos pôr os cabelos em pé

o torso volteia ao sabor do sol, esperando que a semente se faça gente, ao sabor da água

é a pele crestada que nos empresta o verão

é nesta redoma, ao lume dos saberes e dos sabores, que a nossa vida se dispersa e dispara…

o verso e o contraste

o tempo que se fecha sobre si mesmo

o espaço entre a animalidade e o cimento…

 

 

 

Frederico Martinho

A Escola também lá está durante a noite

 

Propôs-se uma Escola à luz da fotografia; fui propô-la sem luz. (Da luz não sei nada, nem se de luz é feito aquilo que faço. Fotografia? Há indícios que não – conseguem dizer-me quem sou quando ando com o Fontcuberta? Não ambiciono a Fotografia, a luz que domino é a da arte. Não desejei retratar a Escola, desejei imaginá-la. Anseio em tornar visível as coisas que apenas nos permitimos olhar e nada como a noite para nos cegar a cegueira. A escuridão promove a luz como a noite as estrelas. A Escola como palco da descoberta e aproximação do Homem perante o mundo é aqui o retrato de uma epifania conceptual da relação do Homem como parte dessa construção: A máquina (a fotografia?) é a ferramenta, o foco a metáfora artística, a imagem é tão-só a realidade.) A Escola também lá está durante a noite.

 

 

 

Hugo Besteiro

quatro contos e um epílogo

 

Estes breves textos familiarmente biográficos, construídos da memória de quem viveu a Escola e ainda cá anda, pretendem, antes de tudo o resto, dar um pequeno contributo para a construção da história da Escola Agrária de Coimbra, que tal como todas as histórias sempre foi essencialmente feita pelos vencedores, regentes e directores, doutores e engenheiros, ignorando quase sempre o papel da maioritária massa trabalhadora e seus filhos na construção dos locais, organizações e estados. Assim, e subscrevendo Soeiro Pereira Gomes, também ele antigo aluno da Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra, na sua mais famosa obra neo-realista, Esteiros, dedicam-se estes textos aos filhos dos homens que nunca foram meninos.

 

 

 

Jorge Martinho

A matéria de uma alma

 

Antigamente às portas da cidade e hoje enlatada por ela, este grande pedaço de terra ainda respira uma certa ruralidade. Uma Quinta agrícola (já urbana) que mistura o cheiro a terra crua e a cavalos, com aromas do bosque e a octanas. Aqui pressente-se, apesar dos contratempos, um passado bonito carregado de história e de estórias. Um dos frutos desse passado é este legado patrimonial fantástico. 

O trabalho que desenvolvi assenta na ideia de ‘postal’. Postal, como suporte de um diálogo entre o ‘hoje feito ontem’ e o ‘ontem visto hoje’. Tendo como referência o passado ancestral no ensino das ciências agrícolas, associada à grande qualidade da paisagem que lhe dá suporte, proponho um conjunto de postais que idealizam essa ‘matéria’ de que é feita a ‘alma’ da Escola Agrária. São imagens que desejam fazer sonhar com estórias impossíveis neste cenário real. 

…Daqui se envia um postal ao passado, ao ano de 1887.

 

 

 

Maria Antónia Ferro

Equinos na Agrária

Aspectos da vida equina na ESA de Coimbra – Atribuição do Nome, Habitação, Alimentação, Local de Trabalho, Procriação, Convívio .

 

Aspectos da vida equina na ESA de Coimbra – Atribuição do Nome, Habitação, Alimentação, Local de Trabalho, Procriação, Convívio .

 

Expresso um particular agradecimento aos Senhor Manuel Vaz Castro que pacientemente me transmitiu o conhecimento do modo de atribuição do nome a cada potro, das principais características de diferentes raças dos equinos na escola e à Doutora Sandra Gamboa do Laboratório de Reprodução pela forma gentil como esclareceu a minha curiosidade e facultou as árvores genealógicas dos animais.

 

 

 

Maria Paulina

Sem código de barras

 

“Maria Paulina, numa instalação de Food Art, apropriou-se ou produziu diversos produtos alimentares, alicerçando-os à Agrária através da etiquetagem. A viagem que nos proporciona é através dos sabores da época da exposição, recriando generosamente o conforto dos estares à mesa.” (Fátima Séneca, in Folha de Sala da Exposição Que Culpa Tem o Tomate, 30 de novembro de 2013)

 

 

 

Rita Maia

Metamorfose

"envolvermo-nos no casulo da nossa alma, fazermo-nos crisálida e aguardarmos a metamorfose"         August Strindberg

 

 

 

 

Sandra Cruz

Museografia - avencas e bafio

 

Ao visitar aquele que foi um dia um (projecto de?) museu da Escola Superior Agrária de Coimbra é impossível ficar-se indiferente ao seu abandono. Está habitado de objectos vários que nos levam a tempos longínquos, mas não tanto, e rapidamente começamos a edificar reminiscências sobre cada artefacto.

Como o imaginário que cada um traça está claramente dependente das suas próprias memórias, os meus primeiros passos no edifício do malogrado museu ficaram marcados pela presença de cerca de uma dezena de vasos com plantas que habitam, viçosas, a sua entrada. A visão destas plantas foi acompanhada por mais duas experiências sensoriais: o odor a edifício fechado, uma exalação que mistura um certo bafio com os materiais do edifício (será algo como pedra, parede de tabique ou tijolo) e o frio que se sente no rosto, um frio que sabemos que existe sempre, de forma perene, nestes edifícios (como o que existia nas lojas das nossas avós, daqueles de nós cujas avós possuíam lojas) quer seja Verão ou Inverno.

E assim vivi a visita ao museu, com a memória da minha avó à flor dos sentidos a acompanhar-me. A presença de alfaias agrícolas também ajudou, é certo.

Chamei a esta experiência “museografia”.
Fica o convite a experimentá-la, começando por espreitar a instalação e, depois, propondo-vos que partilhem connosco uma experiência de memórias como a que poderão ler na página seguinte a esta.

 

Hoje não estou cá 

Há dias deixei o meu lenço – aquele pareo que faço de lenço, aquele que parece uma pintura aborígene, esse, deixei-o na poltrona que era d'a minha avó. Hoje quis usá-lo porque sim. Saí de casa e estranhei o dia. Fiquei desconfiada quando cheguei ao local de combate, qualquer coisa batia certo demais. Eis que, num rompante de perspicácia invulgar, cheirei o lenço, inalei profundamente e fui embora para casa da minha avó. Está lá sol, cheira-se no cimento da eira. Cheguei ao portão «’Vó? ‘Vóó?!» – fui entrando, lá estava ela. E eu a sentir. Ainda a apanhei a fazer a cama e ajudei, uma de cada lado, «Puxa aí essa ponta». Vasculhei as caixas de loiça que tem em cima da cómoda e fiz perguntas sobre a origem de algumas bijutarias. Depois fomos à D.ª Julieta lembrá-la dos ovos para a minha avó fazer um pão-de-ló para o leilão de Domingo que vem. Passámos à costureira para provar uma saia nova. Fico muito contente que tenha mandado fazer uma saia nova, hei-de comprar-lhe um lenço a condizer com o tecido da saia. O peixeiro passou há bocado, buzinou e lá fomos, as duas – eu e a minha avó, comprámos solha. Olhámos uma para a outra e rimos sorrateiras, estamos a marimbar para o colesterol, a solha vai ser frita e comida num naco de pão a pedaços que cada uma tira com a sua navalha e, vá, um copo de pinga. Vamos beber do branco, que é para comemorar o facto de nos termos juntado hoje, já não nos vemos desde que morreu em 2001. São muitos anos ‘Vó, tinha tantas saudades do teu cheiro. Ah, se eu tivesse percebido mais cedo que tinha este tesouro lá em casa. A partir de agora, vou deixar a minha roupa todos os dias em cima da poltrona. E daí, é melhor não, ainda me habituo e depois não dou por ele. Vai ser uma coisa para dias de festa, ‘Vó, em dias de festa: eu e o teu cheiro. Ou em dias de mágoa, isso, para me agarrares. Logo, depois de comermos o peixe frito com pão e bebermos vinho e rematarmos com queijo seco e uma maçã que vais descascar para nós, dormiremos a sesta na cama de ferro da casa da costura. Sei que irás buscar aquele cobertor macio, verde daquele verde rico, e terá o cheiro do teu guarda-fatos e eu vou ser tão feliz.
Vou ser tão feliz, ‘Vó.

 

 

 

Susana Gonçalves

Naturezas mortas com cogumelos e fragmentos insólitos

“Somos nuestra memoria, somos ese quimérico museo de formas inconstantes, ese montón de espejos rotos"

 (do poema Cambridge, de Jorge Luis Borges, in Elogio de la sombra, 1969)

 

 

 

 

 

 ***

 

 

 

Esta exposição contou com a participação especial do Eng.º Dias Pereira, que cedeu várias fotografias e postais de flores que podem ser encontradas nos campos da Escola Superior Agrária, a quem reservamos um agradecimento muito especial.

 

 

 

 

Créditos das Fotografias:

As fotografias são da autoria dos respectivos participantes, com excepção de:

*instalação de Alda Reis - fotografia de Jorge Marinho

*instalação de Fátima Séneca - fotografia de Jorge Marinho

*instalação de Maria Paulina - fotografia de Eduardo Basto

*instalação de Rita Maia - fotografia de Eduardo Basto

*instalação de Sandra Cruz - fotografia de DrGica

 

 

 

Em 2013, o Instituto Politécnico de Coimbra acolheu, nas instalações que foram as vacarias da Escola Superior Agrária, duas exposições do coletivo Pescada nº 5: Cândido ou o Optimismo, inaugurada a 25 de maio, e Que Culpa Tem o Tomate (comissariada por Fátima Séneca), inaugurada a 30 de novembro. Esta segunda exposição, sobre a Escola Superior Agrária de Coimbra, a que se apresenta nesta página online, deu origem a um livro intitulado “Estas naturezas são impossíveis”, que adoptámos também para esta versão virtual. O texto da Folha de Sala da Exposição, escrito pela comissária da exposição, Fátima Séneca, reproduz-se de seguida.

  

 

Sintomas 

 

Em 2012 o coletivo Pescadas Nº 5 ganhou acesso privilegiado a um espaço existente na Escola Superior Agrária/Instituto Politécnico de Coimbra para lá desenvolver projetos expositivos. Desde logo que pareceu pertinente fazer um reconhecimento aprofundado dos locais, das pessoas e da Instituição. Essa exploração apoiou-se em fontes indiretas, com estudo de documentação textual e iconográfica que traça a História e a evolução da Escola, ou ainda com a recolha de testemunhos orais, mas desenvolveu-se principalmente através de sucessivas incursões no terreno. Desse processo de descoberta resultaram imagens e textos que foram sendo trabalhados, de modo a comunicar experiências sensoriais e memórias ou ficções daí decorrentes. A exposição desses trabalhos, que inaugura a 30 de novembro de 2013, Que culpa tem o tomate? recebeu o título a partir de uma interpretação da coimbrense Brigada Víctor Jara de uma composição revolucionária chilena dos Anos 70, algo brejeira mas ainda acutilante. 

Hugo Besteiro, com familiares que residiram e trabalharam na Agrária, compilou estórias acerca da Quinta, enquanto elaborava a sua árvore genealógica. Em quatro contos e um epílogo conta-nos as origens e as viagens dos seus antepassados, os trabalhos e as agruras que conheceram e, simultaneamente, vai-nos desenhando uma realidade que já não é mais. Ao invocar as memórias da tradição oral onde nasceu, reorganiza espaços, percursos e tarefas hoje extintos num testemunho inestimável.

Eduardo Basto, em Ilhéu, expõe fotografias do que existe para lá da Agrária, em zonas próximas e envolventes: através da sua formação em Sociologia, o fotógrafo aborda as existências inicialmente desde o exterior, de modo a não contaminar nem boicotar dados com julgamentos de valor. O que nos trazem estas imagens são os anacronismos do planeamento do território, mas sem se fixarem na sua documentação. São imagens criadas, na medida em que o enquadramento é cirurgicamente preciso, dando-nos os obstáculos ou os pontos de fuga que, visualmente, denunciam as relações da Instituição com a comunidade em que se insere.

Inversamente, Fernando Faria, estudou "o que há para ver" essencialmente pelo interior da Agrária. Selecionou um conjunto de fotografias e deu-nos a espreitar parcelas de vistas: esta fragmentação, juntamente com a luz e a cor escolhidas, remete-nos para um relativo recolhimento, que não é opressivo nem tem nenhuns contornos de voyeurisme. Mostra-nos o que geralmente os visitantes desconhecem ou desvalorizam: partes de interiores e as respectivas entradas de ar e luz; fragmentos de construções diversas, algumas antigas e em pleno uso, outras por terminar ou em ruína; talhões de terra parcialmente cultivada; trechos de caminhos que, ou não têm fim, ou não vão dar a parte alguma.

Jorge Martinho reconstrói a sua Agrária: a partir da vivência do local interessou-se em organizar  maquetas com paisagens habitadas por seres diversos, devidamente etiquetados e acondicionados num museu pessoal. Estes cenários ficcionados, em Fotografia, transportam parte da Agrária para o lúdico de uma construção Playmobile ou, menos candidamente, para uma zona de guerra de um video game.

Maria Paulina, numa Instalação de Food Art, apresenta – em vidro e em louça Bordalo Pinheiro sobre uma toalha-suporte especialmente desenhada para a exposição – diversos doces tradicionais e petiscos portugueses, alicerçando-os à Agrária através da embalagem e da etiquetagem. A viagem que nos proporciona é através dos sabores da época da exposição, recriando com os visitantes o conforto dos estares à mesa.

Sandra Cruz, em Museografia avencas e bafio, Susana Gonçalves em Natureza Morta com Cogumelos e Fragmentos Insólitos, e Alda Reis, em Arquivo fotográfico, com projetos de Instalação, de Fotografia e de Técnica Mista, propõem  visitas ao Museu da Agrária, numa premente chamada de atenção para a urgente revalidação do seu acervo, atualmente sem qualquer desvelo. Somos conduzidos através da decadência de um mausoléu e simultaneamente confrontados com realidades algo sinistras, que nem sempre estamos dispostos a atender: os antigos instrumentos didáticos amontoam-se e fragmentam-se, esquecidos dos preços de mercado que alcançam, e apagados do valor que lhes é intrínseco, enquanto testemunho patrimonial; o ambiente pesado, escuro, frio, húmido, bafiento e claustrofóbico pede vigilância e escrutínio, e provoca desconforto. Apesar destes constrangimentos, ou exatamente através deles, os fungos e as avencas medram e prosperam no Museu, e os exemplares de animais enfrascados responsibilizam-nos pela brutalidade de algumas experiências científicas.       

Dr.Gica, em Knowing vs Seeing,fotografou modelos de frutos do Museu, criando naturezas-mortas meticulosamente dispostas. Interessou-se em explorar a encenação e em trabalhar os valores plásticos da Fotografia, revisitando interesses dos fotógrafos do Pictorialismo, que trabalhavam entre a Pintura e a Fotografia, advogando a capacidade de criar arte através de máquinas e de químicos. Deste modo, conseguiu fotografias que nem trazem os objetos para o presente, nem os devolvem ao seu contexto original. Estas naturezas-mortas são impossíveis, ou seja, não existem assim, conquanto só possam ter sido realizadas recentemente: por paradoxais, transportam-nos para a intemporalidade.

Carlos Júlio, em Estudos sobre Locomoção Animal, reativa um marco na História da Fotografia, estabelecido na década de Setenta do século XIX por Eadward Muybridge e continuado na década seguinte por Étienne-Jules Marey, explorando os movimentos de um cavalo em diversas velocidades de deslocação para comprovar se um equídeo podia ou não ter as quatro patas simultaneamente sem tocar no solo. O objetivo destas fotografias era o de melhorar o treino de cavalos, sem que os fotógrafos pudessem antecipar que as suas sequências estavam a semear o Cinema, nem que as fotografias conseguidas iriam influenciar artistas que trabalharam fora da Fotografia a estudarem e a explorarem o movimento, a sequência e a grelha. A motivação deste projeto de Fotografia afasta-se dos intuitos científicos, técnicos e comerciais que motivaram os já mencionados precedentes: o fotógrafo utilizou uma ActionCam – inscrita no mundo dos desportos radicais como imprescindível e portanto, jovem, barata e acessível – para que seja o próprio animal a captar as suas passadas. As sequências de imagens foram posteriormente examinadas, trabalhadas e reordenadas. Por isso mesmo escapam à literalidade da construção do movimento com imagens fixas, sublinham a componente lúdica do processo e, essencialmente, investem na plasticidade do conjunto de fotografias.

A partir deste projeto, Vanda Ecm escreve Exercícios de Equitação, um texto em prosa aberta que conta a experiência ou a ficção da autora com os cavalos.

Maria Antónia Ferro, em Equinos na Agrária, fotografou o cavalo. Este projeto tem duas componentes: numa, existe um retrato de um cavalo, devidamente emoldurado, com a investigação dos procedimentos que nas coudelarias decidem o nome de cada potro e o decifrar do código lá contido; noutra, a fotógrafa interessou-se por documentar a vida dos cavalos da Agrária, mostrando um conjunto de imagens organizadas consoante as áreas e as atividades que os animais ocupam e desenvolvem. Há um apelo subjacente e urgente para que as instalações, o tratamento e o rentabilizar desta coudelaria mereçam maior atenção e investimento, já que os belíssimos cavalos da Agrária beneficiam e prestigiam toda a comunidade.

Rita Maia, em Metamorfose, interessou-se em explorar a destruição provocada pela ação humana na Natureza, extrapolando preocupações ecológicas: as fotografias, montadas num conjunto do qual escapa uma imagem para a parede, mostram uma "larva" humana em processo de transição. Esse projeto, Metamorfose, completa-se em justaposição com um modelo agigantando de uma lagarta encontrado no Museu que, no contexto da exposição, aparece como um elemento Pop, aproximado do universo infantil e caricatural de Walt Disney, ainda da época em que o ilustrador estava ativo. A cor pastel de carrinha de gelados norte-americana da lagarta contrasta decididamente com as fotografias a preto e branco, que mostram corpos humanos embrionários ou mumificados, contorcidos, e com movimentos violentos e ameaçadores, até ao romper da membrana que os protege ou confina.

Fátima Feliciano apresenta fotografias de céu azul: esse céu é do Sul, como se vê nos prospetos turísticos. Porém, este céu limpo, aparece nestas fotografias inscrito com elementos vegetais aparentemente estéreis. Esses grafismos negros no céu realçam mas quebram o azul cerúleo e invocam as pausas que tudo na Natureza respeita. Com as interrupções dos braços de vinha, aquele azul torna-se frágil e invulgar, e a imagem ganha valor plástico, como se estivesse num tempo em que a presença dessa cor era paga num suplemento, devido ao preço elevado que o pigmento custava ao artista.

Frederico Martinho infiltrou-se na Agrária mais ou menos furtivamente e, durante a noite aqui pelos caminhos, fez fotografias à luz de focos, que apresenta na exposição com um texto apenso. Somos deslumbrados pela aparente simplicidade do projeto, que nos guia passos e olhares sobre veredas e edifícios, sugerindo possibilidades infindas – tantas quantos pares de olhos ali se fixarem –, ao invés de impor uma solução única de fruição das imagens, do texto, e da combinação desses elementos. É de aventura e de poesia que tratam estes trabalhos, desafiando-nos a fazermos a estrada que nos pode fazer seguir viagem.

Ana Teixeira, em Terra à Terra, apresenta duas fotografias do chão de cultivo. Uma das imagens mostra amontoados de torrões e pedras, enquanto a outra captou um terreno com marcas de trabalhos agrícolas. As imagens são obviamente acima da escala e estão ampliadas até ao máximo da sua resolução, com ligeira desfocagem e grão aparente, para realçar a gradação das texturas e das tonalidades. A Agrária, neste projeto, ficou enunciada pelo solo, um dos seus mais básicos princípios e desígnios.

Face a este projeto, Fátima Séneca, com Duas Terras, transporta o chão da Agrária para a exposição, completando-o com solo trazido da Beira Interior. Qualquer afiliação a projetos históricos  de Land Art e/ou da Arte Conceptual seria a pior imodéstia e retirava o trabalho do contexto autobiográfico e experiencial que lhe deu origem. Aproveitou-se esta ocasião para miscigenar duas terras, já que a autora nasceu numa e cresceu noutra, obtendo-se uma espécie de auto-retrato, mais literal do que explícito. Acrescentou-se a esse pedaço de terreno um pequeno ancinho, para que o público pudesse interagir com terra, marcando-a: convida-se a um regresso à infância e motiva-se a gestos desnecessários.

O Engenheiro José Dias Pereira apresenta um conjunto de fotografias que, ao longo de muitos anos, foi fazendo e organizando a partir da Escola Agrária. Estas imagens são documentos importantes na História da Escola e, agora expostas, permitem o imprescindível reanimar da memória do local. O fotógrafo, em Boas Festas, apresenta ainda um projeto de Mail Art que consiste num outro conjunto de imagens, estas situadas no universo do privado. Existem fotografias de flores, árvores e de paisagem, que foram utilizadas como postais votivos, enviados e cuidadosamente conservados dentro do círculo das amizades pessoais. Estes postais formam um conjunto ordenado pelo autor, comprovando que a Agrária sempre foi, e continua a ser através da presente exposição, um lugar de trocas sociais e afetivas.

 

SÉNECA, Fátima, Folha de Sala da Exposição 'Que Culpa Tem o Tomate'. Coimbra: Escola Superior Agrária de Coimbra, Instituto Politécnico de Coimbra, 2013.